11 de fev de 2013

Por trás dessa lente também bate um coração


Na última consulta de rotina ao oftalmologista saímos do consultório com uma receita de óculos para Adam, o diagnóstico hipermetropia e astigmatismo. Apesar do grau não ser muito alto e a médica nos dizer que normalmente o astigmatismo e a hipermetropia não aumentam, tendem a estagnar e a última até reduzir, claro que num primeiro momento ficamos preocupados, principalmente pela imagem que se formou na minha cabeça, Adam usando óculos de lentes grossas e armação pesada, que nos impossibilitaria de ver aqueles olhos amendoados e expressivos os quais nos brinda com um sorriso lindo a cada dia.

E como sempre acontece, só depois de pertencermos a um grupo é que notamos a existência de seus membros. Ao sair do consultório fui surpreendida por um número enorme de crianças usando óculos, de várias cores e tamanhos. Ao pesquisar pela internet, vi que hoje em dia a tecnologia está muito avançada e mais e mais óculos são oferecidos em modelos e tamanhos condizentes aos rostinhos tão pequenos de nossas crianças. Aquela imagem dos óculos grossos e pesados era algo guardado no meu inconsciente, imagem dos tempos de infância e de adolescência, quando usar óculos só deixou de ser algo penoso ao termos o Herbert Viana como companheiro . Hoje em dia podemos ainda encontrar óculos adequados aos nossos pequenos com SD, pois a anatomia facial deles é diferente, nariz menor, orelhas mais baixas, aspectos que podem tornar os ósculos desconfortáveis e encontrarem mais resistência de serem usados.

Mas deixando o lado estético de lado, pelas minhas “andanças” na internet, percebi que a sociedade dá menos atenção que deveria aos aspectos relacionados à visão das crianças. Hoje em dia conquistamos o direito de ter o teste do pezinho realizado em todos os hospitais do País, mas o “teste do olhinho”, no qual se pode detectar doenças congênitas, como a catarata, glaucomas e outras enfermidades que podem levar à  cegueira, ainda não é padrão na maioria dos hospitais. Muitas vezes eles até fazem exames, mas estes são superficiais e incompletos. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde ao redor de 19 milhões de crianças são deficientes visuais. Dessas, 12 milhões possuem deficiência relacionada a erros refrativos que podem ser facilmente diagnosticados e corrigidos. O problemático é que muitos pais só percebem que o filho necessita de ajuda para ver bem quando este está em idade escolar, o que para alguns pode ser tarde, pois há certos tratamentos que devem ser precoces, caso contrário poderá deixar sequelas para o resto da vida.

Nesse aspecto crianças que nascem com SD têm uma atenção maior, como elas possuem uma maior tendência a nascer com problemas visuais ou a desenvolvê-los ao longo de sua infância, muitos países seguem um padrão standard quanto ao tipo e periodicidade dos exames. Entre os problemas mais comuns estão a obstrução dos canais lacrimais (que se não curada até os dois anos de idade precisa de uma intervenção cirúrgica), a blefarite (  inflamação das pálpebras ), o estrabismo, a miopia, o astigmatismo e, às vezes, o nistagmo (movimento rápido dos olhos).

Felizmente Adam recebeu desde o nascimento atenção especializada, primeiramente um teste bastante completo que não detectou nenhuma doença congênita e a partir dos seis meses uma rotina de acompanhamento num intervalo também de seis meses. Nesse meio tempo tivemos a oportunidade de tratar por meio de massagens e limpeza adequada uma pequena obstrução no canal lacrimal que a partir dos 18 meses curou-se por completo. Não fosse a orientação médica, quem sabe uma pequena cirurgia tivesse que ser realizada. Agora, usando óculos, as visitas se consistirão em controle e manutenção dos óculos, bem como observação de como progride ou regride sua deficiência visual. Vale lembrar que por ele estar em uma fase de crescimento é muito importante que as lentes não tenham exatamente o grau da deficiência, pois o músculo deve continuar trabalhando.

Por isso é muito importante que seu filho receba atendimento especializado de um oftalmologista, de preferencia pediatra, mesmo que não possua Síndrome de Down. Exija que seus olhos sejam examinados, mais detalhadamente ao nascer, e depois pelo menos uma vez ao ano, pois Segundo a Sociedade Brasileira de Oftalmologia “a visão se desenvolve 90% durante os dois primeiros anos de vida. Portanto, é durante esta fase que a criança aprende a fixar, a movimentar os olhos de maneira conjunta, a perceber profundidade. Toda e qualquer alteração durante esta fase que não tenha sido corrigida pode acarretar prejuízos na visão para o resto da vida. Além disso, o desenvolvimento motor da criança durante o primeiro ano de vida é diretamente relacionado a sua capacidade visual. O que muitas vezes parece ser um atraso de desenvolvimento pode, na verdade, ser deficiência visual, facilmente diagnosticada e, na maioria das vezes, tratada. Os outros 10% do desenvolvimento visual ocorrem até 7-9 anos de idade.”

Além disso, observe o comportamento de seu filho, se ele apresenta um dos seguintes sintomas: dor de cabeça, cansaço, desinteresse e falta de concentração nas atividades de perto (às vezes até confundida com déficit de atenção), troca de letras, dificuldade em seguir uma linha de um texto e tendência a ver TV muito de perto, não deixe de procurar um oftalmologista, esses são os sintomas mais comuns para problemas relacionados à miopia, ao astigmatismo ou à hipermetropia e podem ser facilmente corrigidos com o uso de óculos.

Hoje finalmente os óculos do nosso pequeno ficaram prontos e se eu já havia ficado mais tranquila ao ver os modelos pela internet, depois que vi os do nosso menino meu coração relaxou por completo, os óculos são lindos, pequenos, lente fina, armação delicada e dá a meu pequeno um look intelectual maravilhoso. Agora a próxima tarefa será fazê-lo acostumar-se com os óculos, mas isso já são cenas de um próximo post.